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O sonho é a herança (1989-2003)
Falar dos últimos anos da trajetória de Sérgio Arouca é abordar o período de sua vida em que ele mais atuou politicamente, os anos em que assumiu um papel de referência nacional para seu partido e para amplos setores da sociedade. Se Arouca foi uma referência em sua área até meados dos anos 1980, e entre 1985 e 1989 assumiu definitivamente um papel de liderança no campo da reforma sanitária (graças a cargos como o de presidente da FIOCRUZ e secretário Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, e à sua atuação na VIII Conferência Nacional de Saúde), pode-se dizer que a partir de 1989 ultrapassou definitivamente as fronteiras de sua área, tornando-se uma personalidade política nacional. Ao mesmo tempo, falar desses últimos anos de sua trajetória é abordar um período em que salta aos olhos com ainda maior clareza as enormes dificuldades de se transformar a utopia em realidade. A partir de 1985, as atividades realizadas por Arouca na área de saúde o fizeram conhecido e mais importante em seu partido. Sua liderança no movimento de reforma sanitária (e por conseqüência a presidência da VIII Conferência Nacional de Saúde em 1986) o fez participar da Assembléia Nacional Constituinte, como o principal representante da sociedade civil nos debates em torno do capítulo dedicado à Saúde na nova Constituição. Foi nesse contexto, aliás, que teve seus primeiros contatos com Roberto Freire (já então um dos líderes principais do PCB), que teria um papel importante em sua vida nos anos seguintes. O fato de Freire só ter tido contato com Arouca naquele momento deixa claro que só então este começava a ocupar um espaço de maior destaque no partido (entrando para as direções estadual e nacional): na área da saúde, quem inclusive participou como representante da sociedade civil em audiência pública no plenário da Assembléia Nacional Constituinte foi Sérgio Arouca. Ele foi o representante maior da sociedade civil no capítulo tocante à saúde. Claro, nós já sabíamos que era do partido. Tínhamos lá a nossa pequena bancada do PCB (Augusto Carvalho, Fernando Santana e eu), e tivemos um grande papel nisso. Eu mesmo, sem ser um homem ligado à saúde, fiquei fortemente ligado com esse capítulo da Constituição. Eu era o instrumento (como parlamentar constituinte) daquilo que ele trazia como contribuição efetiva dos setores de saúde da sociedade civil. Foi ali que eu conheci o Arouca.[1] Em especial por sua atuação destacada na FIOCRUZ (mas também como secretário Estadual de Saúde), Arouca passava a ser conhecido pela população – embora não tão identificado como um militante comunista. Chegada a eleição presidencial de 1989 e confirmada a candidatura própria do PCB (tentativa de divulgar as idéias do partido, melhorar sua “musculatura eleitoral” e unifica-lo internamente), Arouca se revelaria um bom nome para integrar a chapa como candidato a vice-presidente, ao lado de Freire. Um antigo aliado e amigo de Arouca narra como tudo aconteceu (sendo esta provavelmente a versão mais verossímil): O Arouca era na época, dos quadros do partido, o mais conhecido da população, embora não identificado enquanto membro do PCB – mas era a figura pública que mais tava na mídia, (...) ele tinha uma capacidade de produzir fatos muito grandes. E aí tava aquele impasse, quem seria o vice do Freire, articulação daqui, um outro partindo dali, não conseguia... Um dia nós conversando (em mesa de bar, essas coisas só saíam em mesa de bar) e eu: “ô, cara, por que você não topa ser o vice do Freire” “Você acha?” “Acho, você ia dar bem”. Aí eu conversei com o Ary, conversei de novo com ele e eu senti que ele “balançou”... Insisti de novo: “posso falar com o pessoal do partido?” “Pode”. Aí eu fui lá no Comitê Central (...). Aí cheguei no escritório do Comitê Central que funcionava ali na Rua Pedro Lessa, conversei com o Givaldo e ele achou ótima a idéia: “mas o Arouca topa?” “Claro, topa, tô falando com você porque já falei com ele, tem que aceitar”. E o Freire tava viajando, não sei se foi pro México, pra algum lugar, e foi consultado se topava. O Freire disse: “opa, uma maravilha!” [2]Arouca surgia para muitos pecebistas (e para a sociedade) como um homem da ciência, ligado à academia, à pesquisa – visão bastante próxima da realidade. Arouca, apesar de ter atuado politicamente desde a adolescência, de compreender quase tudo que fazia pelo prisma da atividade política e de ter parado de produzir academicamente pelo menos uma década antes, tinha o respeito e admiração de amplos setores da intelectualidade, e sua atuação recente como dirigente e como técnico em cargos públicos contribuía (mesmo que indiretamente, e apesar do sempre presente componente político) para o avanço da pesquisa científica em algumas áreas, e também da saúde coletiva. Além disso, seu papel na reforma sanitária sem dúvida carregava, junto à sua dimensão prática e organizativa, um importante componente de formulação. Assim, o “homem da ciência” e “da FIOCRUZ” surgia como um bom candidato para os comunistas do PCB: chegamos à conclusão de que o melhor nome do partido era o do Arouca. O Roberto Freire era um político nordestino, apesar da questão da linha política que ele tem de ser um deputado nacional, que circula o Brasil inteiro, praticamente não faz trabalho eleitoral em Pernambuco – o que é um defeito, não é uma qualidade, sempre foi assim. E aí precisava de uma pessoa que tivesse livre trânsito, livre acesso principalmente junto à intelectualidade do Rio de Janeiro e de São Paulo. Não só a intelectualidade artística e cultural (que era assim um segmento em que o Roberto Freire já tinha penetração), mas alguém que tivesse respeito e admiração na comunidade técnico-científica – das pessoas que mexiam com ciência, com tecnologia, que estavam na universidade, na academia .[3]Além do papel que o partido esperava que Arouca exercesse (enquanto candidato a vice-presidente) de elo de ligação com a intelectualidade, ele acabaria atuando internamente de uma outra forma também. A chapa Freire/Arouca ajudou a consolidar no interior do PCB posições de renovação e transformação do partido – posições presentes na agremiação há vários anos, mas agora assumindo um espaço majoritário e uma postura mais decidida. Começava-se a propor (posições amplificadas e radicalizadas com a derrocada dos países socialistas do Leste Europeu em 1989 e o fim da URSS em 1991) o abandono de idéias e da organização marxista-leninista, e logo se começaria a falar no fim do partido e na formação de uma organização mais “moderna” e democrática, ligada à “nova esquerda” e aberta a novos tipos de pensamento além do marxista. A campanha de Freire/Arouca foi um passo importante nesse processo, mostrando à sociedade um novo perfil do PCB e interferindo na luta interna do partido. Freire afirma que Arouca era também um pensamento renovador, alguém que estava integrado nessa visão mais moderna, democrática, que o partido começava a ter. A nossa chapa (eu presidente e ele vice-presidente) foi marcante nesse sentido, posso dizer que éramos comunistas diferentes. Tivemos um conceito muito bom durante a campanha, com alguns dizendo que nós éramos os melhores candidatos, que era uma chapa que qualificava .[4]A campanha presidencial foi assumindo aos poucos uma aura de “novidade” para alguns setores da sociedade brasileira, em especial da intelectualidade. Teve sem dúvida uma força simbólica maior que o resultado final alcançado (o oitavo lugar geral, com cerca de 1% da votação total ou aproximadamente 769.000 votos). Aquela campanha mudaria especialmente a vida de Arouca, que a partir daí passou a ser visto como alternativa eleitoral “natural” do partido – basta apontar que antes de 1989 ele nunca havia concorrido a nenhum cargo eletivo, e após a campanha presidencial se candidatou outras cinco vezes. Nas eleições seguintes, em 1990, Arouca foi lançado candidato a deputado federal: “Na campanha ele se destacou. Já tinha um enorme destaque na área de saúde, na área médica, na FIOCRUZ, na ciência, mas aí começou a se destacar na política representativa do estado. Veio a eleição de 90 e nós, sabiamente e oportunisticamente, o lançamos candidato a deputado federal, ele topou.”[5] Capitaneando uma campanha de baixo custo, com o apoio de amigos e militantes, Arouca elegeu-se como um dos candidatos mais votados do Rio de Janeiro, assumindo seu mandato em fevereiro de 1991. Iniciaria-se a partir daí uma relação de oito anos de amor e ódio com o Parlamento. Como ele mesmo afirmaria anos mais tarde: “Fiquei oito anos no Legislativo. E para mim foi uma experiência completamente diferente de tudo que eu imaginava e vivia. O exercício foi muito difícil porque éramos um partido com três parlamentares”[6] (Arouca, Freire e Augusto Carvalho). Arouca sabia que aquele espaço era importante, e que mesmo como integrante de um pequeno partido de oposição podia falar para um grande público, levar adiante diversos projetos e até mesmo influenciar outros parlamentares e liderar alguns processos políticos. Mas por outro lado nunca esteve satisfeito com os ritos parlamentares, as viagens semanais para Brasília, o afastamento da família, o isolamento político em diversos momentos e a falta de diálogo de parte da esquerda. Seu colega de bancada Augusto Carvalho relembra as insatisfações de ambos com o funcionamento parlamentar e os setores hegemônicos da esquerda (leia-se PT e aliados como o PC do B): Claro que o Parlamento tem os seus ritos, não é? Seus procedimentos ali que muitas vezes não combinam com o próprio modo de ser de homens que naquele momento eram representantes do povo. Algumas reuniões já se sabiam que não levava a nada. Alguns “assembleísmos” muito comuns à esquerda, de reuniões intermináveis que resultavam em obstrução. Eu me lembro que tinha épocas em que o Congresso ficava em obstrução durante meses até, sob intensa pressão da opinião pública, e o Arouca se indignava muito com essa falta de produtividade da ação parlamentar. A gente compartilhava muito essa sensação, a gente não era muito afeito a esse jogo de bastidores e de disputas, muitas vezes pra marcar posição – como era muito característico dos setores hegemônicos da esquerda no Parlamento.[7] Seu chefe de gabinete, Fernando Antunes, se recorda de vários motivos de insatisfação para Arouca: (...) o mandato em si, essa forma como o mandato é exercido, aquela coisa de fazer o avião de táxi, uma ponte aérea, aquilo fazia o Arouca... O Arouca sempre gostava daquela questão de ver as filhas crescendo, estar perto das filhas, e aquela obrigação de estar em Brasília, especialmente naqueles momentos em que nós voltávamos do Rio, deixava o Arouca um pouco doído. Ele dizia: “por que tem que ser assim?” Ele nunca teve dúvidas de que precisava caminhar, mas ele refletia muito sobre sua vida privada. Ou seja, estando em Brasília de terça a quinta-feira, ele nunca foi dado a essas badalações de festa (que aqui tem aos montes), de reunir parlamentares em determinados restaurantes. Ao contrário, ele sempre dizia: “a gente não consegue um lugarzinho pra gente comer uma boa comida?” Ele era um gourmet assumido. Ele preferia estar em um pequeno restaurante, bem acompanhado, pra uma conversa mais interessante, do que estar numa grande festa com outros parlamentares, quando o que você faz ali não era muito o que ele queria fazer, não era nada do que ele queria fazer ![8]Antunes, a esse respeito, dá uma declaração importante, no sentido de que a vida parlamentar era vista por Arouca como um “encargo”, uma “missão” que tinha que cumprir em nome do partido e de seu grupo: “ele encarava aquilo ali como um encargo, ‘é preciso estar nisso’. Mas ele dizia: ‘eu me sinto mais à vontade no Executivo.’”[9] Essa simpatia maior para com a atividade no Executivo remetia certamente ao seu passado como presidente da FIOCRUZ e secretário Estadual de Saúde. Provavelmente a vida parlamentar deveria parecer a Arouca em certos momentos enfadonha para o seu gosto pela atividade prática e de consecução rápida. Essa preferência pelo Executivo muito provavelmente remetia também ao que Arouca mais ansiava então para seu futuro: o Ministério da Saúde, talvez seu maior sonho. A declaração apresentada a seguir reforça essa idéia, e relata um momento, alguns anos depois, em que o sonho esteve perto da realização, durante o Governo Fernando Henrique. Arouca muito provavelmente não recusaria tal convite, o que faz crer que aquilo, se seguisse adiante, lhe criaria problemas, senão dentro de seu partido, certamente com outros setores de esquerda: Era Governo Fernando Henrique, e foi na saída daquele ministro Albuquerque, gaúcho. Veio um emissário do Fernando Henrique, ligou pro gabinete, querendo ter uma conversa reservada com o Arouca. E o emissário foi e falou: “Arouca, eu venho aqui em nome do presidente informar que você é uma das possibilidades do presidente Fernando Henrique para ministro. Mantenha essa conversa em reserva até as 18 horas que o presidente vai anunciar a decisão à noite.” Essa conversa aconteceu por volta das 13 horas. “Se vazar pra imprensa, o convite está desfeito.” Depois disso, quando ele saiu, o Arouca me chamou e nós ficamos trancados na sala, e ele daquele jeito coçando a barba: “ah!! Olha que surpresa!” Eu disse: “bem, você não vai, né?” E ele: “se o convite é pra ministro da Saúde eu não tenho o direito de recusar.” A história andou, ele não foi o escolhido. Mas até a resposta que ele deu nesse momento mostrava (acho eu) que era o grande desejo dele, ele poderia de fato acelerar algumas idéias que ele tinha a partir do Ministério da Saúde.[10] Junto a seus primeiros passos como parlamentar, Arouca passou a ser a principal liderança do partido no estado do Rio de Janeiro, o que lhe valeria nos anos seguintes o espaço garantido de candidato principal a deputado federal, além da indicação como candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro na chapa de Benedita da Silva (PT) em 1992 e como candidato a prefeito em coligação com o PV em 1996. Antes disso, Arouca teve um papel destacado na decisão pela transformação do PCB em PPS, que se concretizou em janeiro de 1992. Fora sua atuação prática como um dos principais articuladores do processo (a partir de 1991 ocupando os cargos de vice-presidente nacional do partido e presidente estadual), Arouca teria contribuído, segundo alguns pecebistas, com a discussão e divulgação de algumas idéias que seriam centrais na concepção do novo partido até os dias de hoje. Arouca chamou atenção naqueles anos para a “revolução científico-tecnológica” pela qual o mundo estava passando, que tornaria obsoletas velhas concepções da esquerda – compreensão que levaria o PPS a ter uma postura mais aberta que outras organizações de esquerda em relação à globalização. Também lutaria pela valorização da idéia do “público” como forma de superar a velha concepção “estatista” de quase toda a esquerda até então (e dos comunistas em particular), sem cair na valorização pura e simples da propriedade privada: sempre houve (como há entre os comunistas) a idéia de que o Estado tem que ser forte. O Arouca desconfiava disso, achava que o Estado devia ser eficiente e ágil, profundamente democratizado e substituído por autogestão onde fosse possível. O Arouca estudou isso, se encantou um pouco com essa coisa da rede, do local e do global, e ele defendia no PCB o negócio da radicalidade democrática, ele sempre entendeu muito o seu cerne como sendo a democracia no Estado – o Estado deixar de ser centralizado, privatizado ou não, mas que a tarefa é acabar com o Estado, do ponto de vista histórico! O que não quer dizer que você vá entregá-lo ao privado, ao mercado. Essa noção ele tinha muito, ele e eu defendíamos muito o negócio do público contra o privado e o estatal .[11]Essas duas chaves de pensamento (que poderíamos chamar “público versus estatal e privado” e “revolução científico-tecnológica”) são bastante úteis para compreender a atividade parlamentar de Arouca, em especial seus votos mais polêmicos[12] – dados em seu segundo mandato a partir de 1995, para o qual se elegeu em 1994. Apoiou em parte o Plano Real, votando favoravelmente a iniciativas voltadas à sua sustentação e financiamento, como o Fundo de Estabilização Fiscal (1995) e a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF, 1996). No bojo do processo de desestatização da economia nacional, Arouca votou a favor da maioria das propostas apresentadas pelo governo recém iniciado de Fernando Henrique: quebra do monopólio dos governos estaduais na distribuição de gás canalizado; abertura da navegação de cabotagem; revisão do conceito de empresa nacional. Deu voto contrário apenas ao fim do monopólio estatal das telecomunicações e da exploração de petróleo. Tais votos remetem à busca pelo PPS e por Arouca da ocupação de um espaço enquanto “esquerda democrática”. Procurava dessa forma se opor à “esquerda autoritária” e a “um populismo ultrapassado”, como o próprio Arouca se referiu respectivamente a PSTU e PT e PDT, quando do lançamento de sua candidatura a prefeito em 1996[13]. Um momento importante da atividade parlamentar de Arouca (e talvez o que tenha causado menos polêmica, ainda que não fosse uma “unanimidade”) foi a aprovação em 1995 da Emenda Constitucional de sua autoria permitindo às universidades e institutos de pesquisa brasileiros que contratassem professores estrangeiros mediante concurso público. A Emenda (que foi a primeira aprovada por um parlamentar) também deu às instituições o direito de eleger dirigentes e administrar seus recursos. Sem dúvida foi a experiência na FIOCRUZ que deu a ele a convicção na prática (corroborando idéias que ele foi desenvolvendo ao longo do tempo) de que a autonomia, descentralização e democratização das instituições de pesquisa são caminhos extremamente ricos para o desenvolvimento científico e tecnológico. Além disso, Arouca queria com aquele projeto, segundo seu chefe de gabinete, aproveitar o momento em que cientistas dos antigos países socialistas estavam migrando para o Ocidente, tornando o Brasil um destino possível para eles – além de ter a convicção de que a ciência não deveria respeitar fronteiras políticas: “aquelas limitações que a Constituição nos punha eram realmente uma coisa que poderia condenar o Brasil a um atraso tecnológico que ele achava que precisava se superar. Concretamente havia um interesse em permitir a vinda de cientistas. De forma mais ampla é isso, a crença que ele tinha de que a ciência não deveria ter barreiras.”[14] Um posicionamento de fato polêmico de Arouca no seu segundo mandato como deputado federal consistiu no voto favorável à emenda da reeleição – não observando o ato antidemocrático e desrespeitoso às instituições que representou a aprovação de uma modificação eleitoral que favorecia o próprio propositor da emenda. Também defendeu a princípio o fim da estabilidade no funcionalismo público, afirmando que o projeto previa a “flexibilização” trabalhista (no sentido de novas relações de trabalho adaptados à economia globalizada), e não o fim da estabilidade. Em novembro de 1997, quando o projeto foi votado, Arouca recuou e decidiu votar contra o projeto. No entanto, o estrago já estava feito, e Arouca (apesar de sua trajetória ética e humanista) carregaria pelos anos seguintes a ira de setores sindicais extremamente organizados, decididos a dificultar sua vida política a partir dali: houve alguns sindicatos do Rio de Janeiro colocando o nome de Arouca em outdoor... Por mais que nós tentássemos mostrar a coerência do Arouca no processo, ele nunca se assustou muito. Dizia: “voto com a minha consciência, diferentemente de outros parlamentares que votam por interesses de A, B ou C.” Se o que nós estávamos votando era alguma causa de interesse ou não de Fernando Henrique, o Arouca sempre votou pautado... Muitas vezes até contrário à orientação de sua assessoria! Discutíamos, debatíamos, e ele: “o.k., já ouvi, vou pensar.” E quase sempre nós tínhamos certeza que o voto dele era muito refletido, portanto não havia como tentar enquadrá-lo. Não era característica do nosso partido, nem era uma característica do nosso “fazer política”. (...) Nunca fez a oposição pela oposição, nem foi governista por adesão. Era cada ponto, cada idéia, vamos discutir, vamos debater qual a importância disso no contexto da política nacional, da política do Congresso Nacional como estava sendo tocada.[15] Arouca, nesse caso específico do fim da estabilidade do funcionalismo público, segundo Freire em nenhum momento fez aquilo usando do preconceito que muitos dos que adotaram essa reforma do Governo Fernando Henrique tinham, de transformar servidor público em bode expiatório. Arouca nunca fez com essa forma, fez com a compreensão de uma reforma democrática de Estado – que remetia a uma concepção da nossa candidatura. Esse termo “reforma democrática de Estado” surge na nossa campanha [de 1989].[16] Malgrado as evidentes boas intenções (e abertura para o diálogo) demonstradas por Arouca, o seu posicionamento de “oposição propositiva” ao primeiro mandato de Fernando Henrique (que o levou a se afastar em parte da esquerda tradicional, que naquele momento fazia uma oposição absoluta às suas políticas) levou Arouca a perder parte de suas bases e de seu eleitorado, o que contribuiu de alguma forma para sua derrota em 1998. Mas provavelmente outros fatores contaram para isso – sendo o principal deles o isolamento que o PPS vivia naquele momento, com a primeira candidatura à Presidência da Republica de Ciro Gomes. Arouca, apesar de bem votado, não foi eleito porque seu partido acabou não obtendo no Rio de Janeiro o coeficiente eleitoral necessário para eleger um deputado federal: Quantitativamente o Arouca sempre foi muito bem votado, afinal de contas quem participa do processo eleitoral sabe o quanto é difícil conquistar um voto. O problema é que no processo eleitoral brasileiro não basta isso. Então as alianças que o nosso partido fez, as opções que o nosso partido fez, eu também credito a isso a não reeleição de Arouca pro novo mandato. Sendo bastante sincero eu acho que algumas condutas de Arouca foram malvistas por determinados segmentos organizados da sociedade no campo dos trabalhadores, como também o espectro político no qual o nosso partido se situou fez com que alguns eleitores de Arouca dissessem: “não, eu não voto por conta dessa transição.” Isso existe no nosso campo, é um campo de opinião muito consolidada. Portanto, eu creditaria a essas duas circunstâncias essa situação do Arouca não ter sido eleito para o terceiro mandato .[17]Encerrava-se assim um período de oito anos de atividade parlamentar, ainda que polêmica e discutível em alguns pontos, sempre atuante, relevante e ética. Apesar das dificuldades e restrições que Arouca sempre teve em relação à vida parlamentar, a derrota o abalou pessoalmente e o enfraqueceu politicamente. A perda do mandato coincidiu ainda com dificuldades na vida pessoal: eu acho que foi um período difícil pra ele, sem mandato, teve uma coisa pessoal dele – ele rompeu com a Sarah [Escorel], aliás, ela rompeu com ele. Isso o machucou muito. Eu lembro que eu passei uma tarde inteira bebendo uísque com ele, bêbados num fim de tarde, e ele chorando as mágoas, dizendo que não queria se separar, mas a Sarah estava irredutível... Isso foi uma coisa que machucou bastante ele. Perdeu o mandato, foi um golpe sério para ele. Ele foi muito bem votado, mas a gente não alcançou o coeficiente. E ele pagou também um preço muito caro pelas atitudes firmes na defesa de algumas coisas nossas.[18]O enfraquecimento político se refletiu no interior do partido, com a progressiva contestação de sua liderança regional. O PPS do Rio de Janeiro amargou naqueles anos resultados eleitorais insatisfatórios e defecções de integrantes recentes do partido que haviam entrado em rota de colisão com Arouca e seu grupo, que perdia progressivamente seu espaço (movimento que se completou após o falecimento de Arouca): “ele deu azar que tinha secretários de organização muito ruins, que não conseguiam organizar o partido. [risos] (...) organização é muito detalhe, é um troço chato organizar partido, mas de qualquer modo ele preparou a virada – que aconteceu no Rio de Janeiro. Essa coisa de você fazer um partido mais aberto, mais pluralista, menos militarizado, e com direções que tenham repercussão social e política. Começou com ele.”[19] Se Arouca contribuiu para uma “abertura” do PPS no Rio de Janeiro, nacionalmente permaneceu naquele momento como uma referência de que a essência do partido não estava se perdendo com suas novas alianças e posicionamentos: “ele era uma fortaleza pra que as pessoas acreditassem que o partido não estava perdendo o rumo”[20]. Com esse papel de “fortaleza” do partido, Arouca acabou tendo alguns problemas com o símbolo maior das mudanças no partido (tão grandes que se corria o risco concreto da completa perda de rumo): Ciro Gomes. Nas duas campanhas presidenciais do candidato, mas especialmente na de 2002, Arouca (e grande parte do PPS) se ressentiu da pouca presença do partido na própria coordenação, inclusive da sua pouca presença, como uma referência nacional. Eu acho que qualquer partido gostaria de ter Arouca como um dos coordenadores de seu programa de governo nessa área de saúde e de ciência e tecnologia, e o Ciro (não vou qualificar) abriu mão disso, acho que não soube valorizar essa pessoa, essa criatura que ele tinha próximo a ele. Talvez não o tenha feito também pelas conjunturas políticas que o envolvem, e eu acho que é isso que faz a diferença das pessoas: Ciro não tem talvez a generosidade e a grandeza que Arouca tinha, então não foi capaz de perceber isso, de superar outras divergências pra trazê-lo mais para perto de si. E perdeu. Acho que Arouca não perdeu nada até ficando mais distante desse processo.[21] Apesar das dificuldades, Arouca demonstrava nesse caso uma vez mais sua capacidade de dialogar e de buscar em qualquer interlocutor pontos que ele via como positivos: Ele não é uma pessoa de formação de esquerda e é claro que é um encontro que produziu muitas perspectivas e, em algum momento, tensões. (...) Agora, ele nunca traiu. (...) Ele é hoje uma pessoa que tem uma militância dentro do partido. E essa militância é interessante porque, como alguém que disputa a Presidência da República, ele poderia começar a aparelhar o partido, querer disputar a presidência do partido. Nunca aconteceu isso .[22]Se no interior do PPS Arouca era um símbolo da velha essência do partido, para alguns setores da sociedade ele ainda se mantinha (apesar da derrota eleitoral) como uma referência no campo da saúde pública. Foi em busca desse símbolo que César Maia o chamou para ocupar a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, em seu segundo mandato (a partir de 2001). Naquele momento, Maia estava no PTB, partido que estava em aproximação com o PPS, visando apoiar Ciro nas eleições de 2002. O apoio a Maia no Rio de Janeiro (que dizia querer se reaproximar da esquerda naquele momento) integrava aquela aproximação, e Arouca aderiu à campanha um tanto contrariado: Teve aquele negócio do César Maia – que foi um preço que ele pagou. Ele tinha resistências ao César como candidato nosso. Eu me lembro bem que eu também montei (foi até uma vez que eu fiquei puto com ele), porque eu combinei com ele e a Lúcia uma reunião deles com o César. Na hora em que eu chego, me telefona dizendo que não vai. Mas isso demonstra também que ele tinha uma resistência – coisa que eu não tinha. Ele tinha uma resistência grande, mas terminou indo. Em função de uma posição nossa, de uma posição do Roberto, do próprio Ciro, fomos e houve aquele negócio todo... Mas o César (...) nunca faria um governo com o Arouca dentro. Isso é uma coisa que, conhecendo o César como eu conheço, não podia dar certo – porque o César também gosta de “capacho”. E nem tinha uma concepção de saúde pra continuar com o Sérgio Arouca .[23]Os atritos seriam uma constante nas relações entre o prefeito (que já começava a se afastar do PTB para retornar ao PFL, consequentemente se afastando também de Ciro Gomes e do PPS) e seu secretário, que divergiam quanto à melhor forma de prevenir o dengue, quanto à organização da Secretaria e quanto ao programa de médicos de família que Arouca queria implantar na cidade: não tinha condições de continuar, tinha divergências sérias com relação à escala do trabalho dos médicos de família, dos agentes de saúde. A idéia dele era fazer um programa de médicos de família e de agentes comunitários de saúde numa escala sem precedentes no Rio de Janeiro. Ele dizia assim: “esse negócio só vai dar certo se for uma coisa de massas, em que as comunidades inteiras estejam envolvidas” . [24]No último lance da queda de braço entre os dois, Arouca enviou uma mensagem eletrônica para Maia comentando que “estava com ele enquanto nossos projetos fossem semelhantes, mas que no instante em que divergissem, eu estava fora. E esse e-mail vazou para a imprensa. Dizem que foi entregue pelo grupo dele. No instante que o e-mail vazou, ele veio com essa de perguntar o que era aquilo e me demitiu, por e-mail.”[25] Essa demissão por e-mail seria desgastante para Arouca – que, para boa parte da esquerda, já estava mais uma vez em posição desfavorável por ter apoiado Maia e participado de seu governo. Somado a mais esse desgaste, pouco tempo depois (em 2002) ele receberia a notícia de que estava com câncer no intestino – o que o faria abdicar de mais uma candidatura a deputado federal naquele ano. Arouca iniciou o tratamento de sua doença, enquanto colaborava (como lhe era permitido) na campanha eleitoral. Com a vitória de Lula no segundo turno, Arouca passou a ser um dos maiores entusiastas do apoio a seu governo no interior do PPS (enquanto alguns defendiam um “apoio crítico” ao novo governo): “ele, o próprio Roberto, tinham a convicção de que realmente tinha começado no Brasil uma nova etapa – e não o fim de um ciclo, digamos assim. (...) E o Arouca inclusive era da tese de que a esquerda tinha vencido. Na primeira reunião do Diretório Nacional depois da eleição do Lula ele fez esse discurso.”[26] Discurso que, segundo uma dirigente do partido, teria “desequilibrado” a reunião em favor do apoio ao Governo Lula: Um momento que eu acho importante da liderança de Arouca foi a reunião do Diretório que definiu pela participação no Governo Lula, o Arouca teve uma participação e uma fala importantes. Algumas lideranças defendiam no processo mais independência, e o Arouca naquele momento, com toda a sua forma enfática de abraçar as causas, coloca a importância de nós estarmos integrando o governo, fazendo parte efetivamente desse governo que era um governo de esperança, que há tanto tempo se esperava que a esquerda pudesse ter essa oportunidade, e que um partido com toda a responsabilidade, que sempre marcou na forma de agir, de atuar, de forma responsável, sempre colocando os interesses da nação acima dos interesses conjunturais do próprio partido. Então era fundamental que o partido aproveitasse essa oportunidade e fizesse parte do governo – e ele virou literalmente a reunião. A sua fala teve muito impacto![27] Enquanto o apoio ao novo governo era confirmado, iniciava-se uma articulação que, se desse certo, finalmente levaria Arouca ao posto que ele tanto ansiava: o de ministro da Saúde. No entanto, o nome do petista Humberto Costa naturalmente agradou mais ao novo governo que os apelos por Arouca – representante “histórico” de um partido que tinha acumulado tantas divergências e disputas com o PT nas últimas décadas (basta lembrar os atritos entre PT e PCB, e as diferenças de posição durante o Governo Fernando Henrique): O melhor homem para ir para o Ministério era ele. Eu e o Roberto fizemos uma força grande, mas o Lula malandro, não é? Porque o Lula jamais colocaria Arouca no Ministério, o Roberto Freire, ou a mim. Já o Ciro, né... [Ciro Gomes, não identificado propriamente com o PPS, seria o nome do partido no governo, como ministro da Integração Nacional] Tinha uma possibilidade, e nós fizemos um esforço grande pro Arouca ser ministro da Saúde – e não havia nome melhor do que ele. Finalmente, foi rejeitado[28].Afastada a possibilidade de Arouca ser ministro, começou uma nova articulação para que ele ocupasse um papel importante no Ministério: No primeiro momento, acho que a intenção do ministro era dar uma assessoria especial para Arouca, mas nós achávamos que não caberia. Uma pessoa que tem todo o perfil, todas as condições (...), muito mais gabarito e condições pra ser o ministro da Saúde do que o Humberto Costa, não tenho nenhuma dúvida, nenhuma dúvida! O Humberto foi ministro por um acaso (...), uma circunstância, uma contingência da política. Então não caberia a Arouca – por mais que ele seja uma pessoa extremamente humilde. (...) Então todo esse conjunto de pessoas que estavam com ele discutindo fomos contra que ele aceitasse simplesmente uma assessoria especial. Decidimos batalhar por uma coisa com um pouco mais de peso, que tivesse certa influência maior – e foi aí que Arouca teve uma grande sacada (como grande pensador e formulador que ele era, que ele é) de criar uma Secretaria de Gestão Participativa. Que pudesse estar pensando e repensando toda essa questão da participação popular dentro do sistema de saúde como um todo no país. (...) uma idéia que surgiu, que foi concebida, mas não teve tempo pra ser amadurecida, pra ser trabalhada e pra ser consolidada .[29]A nova Secretaria foi criada e entregue a Arouca[30]. Mas ele não teria tempo para levar adiante seu projeto na Secretaria de Gestão Participativa – nem para ter outra oportunidade de se tornar ministro. Sua doença recrudesceu no início de 2003, e ele passou a ir pouco a Brasília (bem como não pôde acompanhar como gostaria a organização da XII Conferência Nacional de Saúde): Já doente, já combalido, quando estava se estruturando a Secretaria de Gestão Participativa, em alguns momentos dava pra perceber que ele estava frágil. Mas com um empenho, com uma força interior fantástica! Ele aceitou encarar uma missão bastante inovadora, que é a proposta de ampliar a participação da comunidade, dos trabalhadores, sair do dilema que equiparava participação a conselho social.[31] Tanto a Secretaria como a XII Conferência eram vistos por Arouca como passos fundamentais para levar adiante um projeto que ele acalentava nos últimos anos: a “reforma da reforma sanitária”, a reforma do SUS, que não havia sido implantado exatamente da forma como havia sido concebido e, além disso, já necessitava de profundos realinhamentos e adaptações (fruto de novas reflexões). Como Arouca dizia, Este modelo está falido. Por quê? Porque nós conseguimos todo um arcabouço legal e democrático de reformar o Estado, mas o conteúdo dele continuou sendo o da medicalização da vida. Continuou sendo o conteúdo não da saúde, mas da doença. Continua sendo o conteúdo do hospital e não do atendimento básico na família. O centro do modelo do SUS está absolutamente equivocado. Acho que ninguém está satisfeito com esse modelo que está aí. Então chega certo momento que temos que fazer a “reforma da reforma”. Nós fizemos a reforma sanitária que criou o SUS, mas o núcleo dele, desumanizado, medicalizado, está errado.[32] Este último projeto não pôde ser levado a cabo – ao menos não com sua participação. Arouca faleceu em 2 de agosto de 2003, aos 62 anos incompletos. (texto produzido por Fabricio Pereira da Silva) [1] Roberto Freire, depoimento cedido em Brasília (DF) em 19 de maio de 2005, pág. 45. [2] Rivaldo Venâncio da Cunha (Sergipe), depoimento cedido em 16 de abril de 2005 no Rio de Janeiro (RJ), conferir Relatório Sérgio Arouca (1976-1988), pág. 171. [3] Luiz Carlos Azedo, depoimento cedido em 19 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 41. [4] Roberto Freire, op. cit., págs. 46-47. [5] Givaldo Siqueira, depoimento cedido em 19 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 75. [6] Entrevista com Sérgio Arouca. Pasquim, n.º 28, pág. 8. [7] Augusto Carvalho, depoimento cedido em 19 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 53. [8] Fernando Antunes, depoimento cedido em 19 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 65. [9] Id., pág. 57. [10] Id., pág. 47. [11] Givaldo Siqueira, op. cit., pág. 79. [12] Nem sempre em consonância com seus companheiros de bancada ou com seu partido – que, no entanto, buscava não “fechar questão” em torno da maioria dos temas. [13] “Sérgio Arouca”, verbete do Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro do CPDOC/FGV. www.cpdoc.fgv.br [14] Fernando Antunes, op. cit., pág. 58. [15] Id., págs. 61-62. [16] Roberto Freire, op. cit., pág. 47. [17] Fernando Antunes, op. cit., págs. 64-65. [18] Givaldo Siqueira, op. cit., pág. 77. [19] Id., pág. 80. [20] Fernando Antunes, op. cit., pág. 60. [21] Márgara Cunha, depoimento cedido em 19 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 71. [22] Entrevista com Sérgio Arouca, op. cit., pág. 17. [23] Givaldo Siqueira, op. cit., pág. 78. [24] Luiz Carlos Azedo, op. cit., págs. 41-42. [25] Entrevista com Sérgio Arouca, op. cit., pág. 15. [26] Givaldo Siqueira, op. cit., pág. 77. [27] Márgara Cunha, op. cit., pág. 68. [28] Givaldo Siqueira, op. cit., pág. 77. [29] Márgara Cunha, op. cit., pág. 69. [30] Que também foi enviado como representante do Ministério no Congresso da Organização Mundial de Saúde no início de 2003 (em Genebra, Suíça), sua última atividade internacional. [31] Sylvain Levy, depoimento cedido em 20 de maio de 2005 em Brasília (DF), pág. 86. [32] Entrevista com Sérgio Arouca, op. cit., pág. 12. |
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